Chamamos de parto espontâneo aquele que se inicia espontaneamente, e termina em um parto vaginaI
O parto de início espontâneo é considerado o desfecho mais saudável para mãe e bebê, recomendado pelos organismos de saúde e pelo UNICEF, e desejado por muitas mulheres.
Para uma gestação que decorreu dentro dos padrões de normalidade, com um bebê que está na posição de cabeça para baixo entre 37 e 42 semanas de gestação, o trabalho de parto tende a ser espontâneo e o parto vaginal tende a ser a melhor recomendação.
Estudos associam melhores resultados de saúde, a curto, médio e a longo prazo, menos riscos de complicações para mulher e para o bebê quando o parto é normal do quando comparamos aos nascimentos por cesariana sem indicação médica.*
A OMS (Organização Mundial de Saúde) salienta também que o parto deve ser uma experiência positiva para mulher e sua família, e que a assistência deve levar em conta as suas preferências e valores, e seguir as evidências científicas.

O que dá pra ver sobre as intervenções no parto com os dados do SINASC?
Na última década, podemos ver algumas das intervenções no parto, por exemplo, quais partos foram induzidos ou se iniciaram espontaneamente, se a cesárea foi feita sem trabalho de parto, ou feita durante um trabalho de parto, e se este trabalho de parto se iniciou com uma indução. Isto permite, por exemplo, usar a Classificação de Robson para avaliar os excessos de cesárea desnecessária, e já é muito útil para avaliar a assistência. O Brasil foi pioneiro na inclusão destas variáveis.
No entanto, os sistemas de informação como o SINASC ainda têm poucas informações sobre outras intervenções que podem ser de grande interesse para as mulheres e os gestores de saúde, como taxas de episotomia ou aceleração do parto com drogas. Também não temos informações sobre um serviço inclui práticas de humanização do parto como acompanhantes, amamentação na primeira hora ou corte tardio do cordão. Mas temos esperança de que estas e outras informações estejam disponíveis em breve, seja no SINASC ou em outras fontes.
A classificação dos tipos de parto atualmente utilizado pode conduzir a interpretações equivocadas da realidade. Por exemplo, de acordo com as atuais diretrizes do Ministério da Saúde, o parto vaginaI “espontâneo” pode incluir tanto os partos sem intervenções desnecessárias (chamados humanizados) quanto os partos com muitas intervenções (aceleração com ocitocina, episiotomia, fórceps, kristeller, peridural, entre outras). Ou seja, o trabalho de parto pode ter um início espontâneo, mas seu decorrer teve um conjunto de intervenções que podem levar a riscos adicionais. Por isso, usamos o termo “parto espontâneo” (entre aspas), ou o termo “parto vaginal não induzido”, que seria mais correto.


O que é mesmo o “trabalho de parto”, e para que serve?
O “trabalho de
parto” é o conjunto de processos fisiológicos e anatômicos que resultam em contrações
uterinas e abertura (dilatação) do colo do útero. Este trabalho permite a
passagem do bebê pela vagina e sua saída pela vulva, o que o chamamos o “parto”,
a apartação do corpo do bebê do corpo da mãe.
Por muito tempo, o
trabalho de parto foi visto como doloroso, perigoso, primitivo e humilhante,
algo que as mulheres deveriam evitar sempre que possível. No entanto, nos
últimos anos este conceito tem mudado radicalmente. Embora o que que
desencadeia o início do trabalho de parto na gestante não seja um fenômeno
totalmente compreendido, o que sabemos hoje em dia é que este início é
desencadeado por processos anatômicos e neuro-hormonais interativos, complexos
e finamente coordenados.
O resultado é que
o início do trabalho de parto espontâneo (refletidos nas contrações uterinas e
dilatação do colo, e outros sinais) em mulheres grávidas saudáveis a termo (com
mais de 37 semanas completas, idealmente mais do que 39 semanas) geralmente
ocorre quando a mãe e o bebê estão no auge da capacidade neuro-hormonal e
psicológica para o parto e para as transições mãe-recém-nascido.
Os benefícios fisiológicos do trabalho de parto e nascimento
espontâneos incluem a otimização as complexas transições de
gestante-para-mãe e de feto-para-recém-nascido, como o início da amamentação,
do apego mãe-bebê e de outros resultados de saúde de curto e longo prazo. Hoje
sabemos que o parto espontâneo reduz os riscos imediatos para os nascidos (de
dificuldades respiratórias, infecções, internação em UTI, ou mesmo de morte
neonatal).
Saiba mais sobre o impacto das cesáreas na idade
gestacional e na mortalidade neonatal no Município de São Paulo (link para o artigo)
Além disso,
pesquisas indicam que passar pelo trabalho de parto reduz também o risco de
doenças crônicas ao longo da vida, como obesidade, diabetes, hipertensão
arterial, doenças inflamatórias, e mesmo alguns tumores. Por isso, é importante
que as mulheres sejam informadas destes benefícios durante o pré-natal, para
buscarem ter seus bebês em instituições que estejam alinhadas com suas
necessidades.