Nas últimas décadas, houve uma grande mudança na interpretação da ciência sobre o que é e o que pode ser a assistência ao parto. Com o progresso da medicina, casos complicados de saúde de mães e bebês atualmente podem sobreviver graças a recursos médicos, e é fundamental que esta medicina apropriada e no momento certo esteja disponível para quem a necessita. No entanto, o uso exagerado de tecnologia médica para quem não precisa, também acrescenta riscos para a saúde de mães e bebês, no curto, médio e longo prazos.
O uso desnecessário de recursos médicos e cirúrgicos, como cesáreas sem trabalho de parto, induções de parto, episiotomia, aplicados para a maioria da população, como ocorre no Brasil, aumenta os incômodos, os custos e os riscos da assistência. Ou seja, as intervenções necessárias ajudam à saúde, enquanto as desnecessárias podem prejudicar a saúde de mães e bebês, piorando os nossos indicadores de saúde.
Mais do que medicalizada, a experiência do parto no Brasil é altamente cirurgificada. O fato da grande maioria das mulheres sair da experiência do parto com uma ferida cirúrgica (uma cesárea, ou no parto vaginaI, uma episiotomia ou uma sutura de laceração) também implica em mais dor, mais uso de antibióticos, analgésicos e anti-inflamatório, além de dificuldades para amamentar confortavelmente ou para descansar, fatores que aumentam as chances de depressão pós-parto.
Além disso, a experiência do parto, do pós-parto e da amamentação é prejudicada pela falta de privacidade, treinamento desatualizado dos profissionais, problemas de infraestrutura, ambiência e rotinas de assistência, limitações dos direitos a acompanhantes, imobilização física das pacientes, e por formas de comunicação autoritária e frequentemente abusiva.
O que diz a medicina baseada em evidências sobre o parto?
Com a chegada da medicina baseada em evidências, hoje sabemos que os melhores resultados em termos de segurança no parto são aqueles associados aos partos que se iniciam espontaneamente, com “o mínimo de intervenções compatíveis com a segurança e o conforto da mãe e do bebê”, como recomendado pela Organização Mundial da Saúde, em um ambiente de acolhimento, respeito e privacidade, sendo a tecnologia usada apenas quando necessária, ou desejada pela mulher. Mais recentemente, um tema até então invisível – a experiência da mulher no parto – passou a ter grande proeminência, com o reconhecimento científico de que muitos desfechos negativos de saúde materna ou neonatal podem resultar de uma experiência abusiva ou traumática na assistência.



As evidências mostram que para reduzir o uso desnecessário de drogas e cirurgias no parto, é preciso mudar a formação dos profissionais de saúde, trabalhar em equipe interdisciplinares, mudar a ambiência e as rotinas de assistência. Esta nova ciência está refletida nas Recomendações desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, pela Organização Mundial da Saúde, e por organizações não-governamentais que trabalham com a promoção da saúde de mulheres e crianças. Estes documentos enfatizam que a mulher deve participar das decisões e ser ouvida em suas preferências e valores.